RELATÓRIO - Reunião 04/04/2019 - "História e Consciência de Classe", Georg Lukács (Consciê
- 4 de abr. de 2019
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Relatório – Reunião 04/04/2019
Tema: A reificação e a consciência do proletariado
1. A filosofia clássica, ao mesmo tempo em que dissipou impiedosamente todas as ilusões metafísicas da época precedente, tinha de proceder em relação a alguns dos seus próprios pressupostos com a mesma falta de crítica e de maneira tão metafísica e dogmática como suas predecessoras , caracterizando-se, nesse ponto, pela aceitação dogmática do modo de conhecimento racional e formalista como a única maneira possível de apreender a realidade, em oposição aos dados estranhos a “ nós” que são os fatos.
2. (...) Em seu esforço [da filosofia clássica] para dominar a totalidade do mundo como autoprodução, a concepção grandiosa, segundo a qual o pensamento pode compreender apenas o que ele mesmo produziu, esbarrou contra a barreira intransponível do dado, da coisa em si.
3. O dogmatismo (...) tornou-se um guia e uma fonte de desvios. Um guia porque o pensamento foi impelido a superar a simples realidade dada (...) e foi conduzido a orientar-se na direção da simples contemplação.Uma fonte de desvios porque (...) interditou a descoberta do princípio verdadeiramente oposto e que suplanta de fato a contemplação, o princípio da prática.
4. A elucidação crítica da contemplação esforça-se para suprimir integralmente de sua própria atitude todos os aspectos subjetivos e irracionais, todo elemento antropomórfico; busca destacar com vigor crescente o sujeito do conhecimento do “homem”e transformá-lo num sujeito puro, puramente formal.
5. A ética formal de Kant, talhada à medida da consciência individual, pode certamente abrir uma perspectiva metafísica para a solução do problema da coisa em si, ao fazer aparecer no horizonte, sob a forma de postulados da razão prática, todos os conceitos, decompostos pela dialética transcendental, de um mundo compreendido como totalidade; porém, do ponto de vista do método, essa solução subjetiva e prática permanece encerrada nos mesmos limites da problemática objetiva e contemplativa da crítica da razão.
6. O fim que Kant fixa para a consciência é o de descrever a estrutura do conhecimento que manipula os “puros sistemas de leis”, isolados sistematicamente, num meio também sistematicamente isolado e homogeneizado.
A ética de Kant conduz aos limites da contemplação abstrata. Escapou a Kant a estrutura da verdadeira práxis enquanto superação das antinomias do conceito do ser.
7. Para resolver a irracionalidade na questão da coisa em si, não basta a tentativa de ir além da atitude contemplativa. Quando a questão é formulada de maneira concreta, a essência da prática parece residir na supressão da indiferença da forma em relação ao conteúdo.
8. O principio da prática como princípio da filosofia só é encontrado realmente, portanto, quando se indica ao mesmo tempo um conceito de forma, cuja validade não tenha mais como fundamento e condição metodológica essa pureza em relação a toda determinação de conteúdo, essa pura racionalidade. O principio da prática, enquanto principio de transformação da realidade, deve então ser trabalhado na medida do substrato material e concreto da ação, para poder agir sobre ele quando entrar em vigor.
9. A prova de Kant fracassa no momento em que o objeto é apreendido como parte de uma totalidade concreta e que se torna claro que, ao lado do conceito formal e limitado do ser inerente a essa pura contemplação , é possível e até necessário conceber outros níveis de realidade, (ser, existência, realidade etc em Hegel).
10. Hegel critica o fundamento metodológico do pensamento de Kant da seguinte forma: Para esse conteúdo considerado como isolado, é de fato indiferente ser ou não ser; essa diferença não lhe diz respeito. De maneira mais geral, as abstrações do ser e do não ser deixam de ser abstrações ao adquirirem um conteúdo determinado. O ser é então realidade.
11. O conceito formal do objeto do conhecimento, derivado de maneira inteiramente pura, a coesão matemática e a necessidade de leis da natureza como ideal de conhecimento transformam esse último cada vez mais numa contemplação metódica e consciente dos puros conjuntos formais, das “leis”que funcionam na realidade objetiva, sem intervenção do sujeito. Portanto, a tentativa de eliminar o elemento irracional inerente ao conteúdo não é mais dirigida somente para o objeto, mas, de maneira crescente , também para o sujeito.Em oposição àaceitação dogmática de uma realidade simplesmente dada e estranha ao sujeito, nasce a exigência de compreender, a partir do sujeito-objeto idêntico, todo dado como produto desse sujeito-objeto idêntico, toda dualidade como caso particular dessa unidade primitiva. Essa unidade é a atividade.
12. Se a filosofia parte de um fato, coloca-se no mundo do ser e da finitude, ser-lhe-á difícil encontrar, a partir desse mundo, o caminho do infinito e do suprassensível; se parte do ato, está justamente no ponto que reúne os dois mundos e a partir do qual pode abarca-los com único golpe de vista.
13. Trata-se portanto, de mostrar o sujeito do ato e partindo de sua identidade com seu objeto, compreender todas as formas dualistas do sujeito-objeto como derivadas desse “ato”, [ou seja]como seus produtos.
14. Kant partia metodicamente da ciência da natureza mais avançada na época, a astronomia de Newton, e moldara sua teoria do conhecimento justamente à medida desta e de suas possibilidades de progresso, admite, portanto, necessariamente, a possibilidade ilimitada de alargamento desse método. Sua crítica incide apenas no seguinte: mesmo o conhecimento acabado do conjunto dos fenômenos seria apenas um conhecimento dos fenômenos ( em oposição à coisa em si); pois, mesmo o conhecimento acabado do conjunto dos fenômenos jamais poderia superar as barreiras estruturais desse conhecimento – isto é, segundo a nossa formulação, as antinomias da totalidade e as antinomias do conteúdo.
15. O principio prático auxilia a resolver as antinomias da contemplação.
16. Teoria e práxis referem-se aos mesmos objetos, pois todo objeto é dado como complexo espontaneamente indissolúvel de forma e conteúdo. Todavia, enquanto a diversidade das atitudes do sujeito orienta a prática para o que há de qualitativamente único, para o conteúdo ( “facticidade contingente”) e o substrato material de cada objeto, a contemplação teórica afasta-nos desse aspecto.
17. O pensamento teórico-contemplativo procede ingenuamente porque acredita poder extrair os conteúdos a partir das próprias formas, atribuindo-lhe funções metafisicas ativas ou ainda enquanto apreende o material estranho às formas – de maneira igualmente metafisica -como inexistente.
DEBATES
Contextualização
O autor está fazendo o percurso da Fenomenologia do Espírito. O alvo da crítica é Kant que, para Lukacs, " Quer entrar na água sem se molhar", tendo como pano de fundo o debate entre Kant e Hegel.
Hegel e Kant tinham um debate com Fichte e Schelling. O livro " German idealism and the problem of knowledge: Kant, Fichte, Schelling and Hegel" é esclarecedor, pois recupera com simplicidade esses debates. Kant é apresentado como um crítico da ontologia e otimista epistemológico. A coisa em si existe, mas não e apreensível pelo sujeito. O sujeito apenas a representa. Debater a coisa em si tem implicações na discussão sujeito-objeto.
A formalidade de Kant pode dificultar a apreensão da coisa em si, pode levá-la a uma postura contemplativa.
Conhecimento formal aparece muito em Hegel, que nega caráter científico à matemática, pois teria um caráter meramente formal.
É importante entender o capitalismo a partir do capitalismo, daí decorre a relevância do estudo da coisa em si.
Para Hegel, conhecimento e consciência não são apenas representação, mas há idealismo quando se afirma que somente é real aquilo que é produzido pela consciência (desindividualizada). Hegel investe contra a concepçã reprrepresentacional de conhecimento, que não consegue ter uma concepção concreta da realidade. Aponta que Kant trabalha com uma realidade ideal. O idealismo de Hegel é diferente do idealismo de Kant.
Dialética senhor X escravo presente em Hegel seria automaticamente convertida em uma teoria do reconhecimento, como vemos em J.Butler ou em Paulo Freire ( Pedagogia do Oprimido). No entanto, Hegel considera o trabalho a mediação dessa dialética, elemento que autores como Butler e Freire não consideram. Esse tipo de mediação nem Kant considera. Ainda assim, Hegel considera o trabalho, por ele entendido exteriorização humana, um conceito transhistórico.
Sobre o pensamento formalista
Formalidade é a necessidade de explicar os passos da construção do pensamento. É a racionalização do processo de pensamento. Decorre da necessidade de demonstrar que o percurso da razão não é um processo metafísico, mistificador como a religião. A preocupação com o percurso da razão é maior que a preocupação com a coisa em si.
O melhor exemplo é a matemática. É um conhecimento que se "auto- reproduz". Ex: 2 bananas + 2 maçãs= 4 frutas. A matemática transforma isso ( 2+2 = 4) e produz diversos desdobramentos daí, por ex: números positivos, números negativos etc.
A lógica formal é estática, que se dá em termos puros, pode ser pensada em contraposição à dialética.
Hegel ultrapassa o formalismo, embora seja idealista. Em fenomenologia do espírito ele busca desenvolver uma ciência da experiência da consciência. Ex: indicação. Indicação de uma singularidade só se faz por meio de um universal. A matemática encontra uma realidade interna que não tem relação com a realidade.
As determinações do ser
O ser, em geral, precisa ser um ser sem determinações. Ocorre que se você retira todas as determinações buscando encontrar o ser puro, não resta nada. A máxima expressão do ser, em sentido puro, é o nada. A partir daí Hegel desenvolve a dialética. O conhecimento formal abstrai todas as determinações para encontrar a pureza ontológica e isso vai gerar uma contradição: a máxima expressão do ser é o nada. Toda validação do ser puro em Kant aparece como afirmação em Kant e não como uma negação, como sucede com Hegel. Se o conhecimento racional não corresponde à coisa em si, isso não significa que o conhecimento está errado, mas que a coisa em si é incognoscível.
O ser puro e o nada não são a mesma coisa. As coisas apenas são cognoscíveis através de suas determinações. Na medida em que se caminha para eliminar essas mediações que constituem o ser, como ser específico a partir da referência exterior (de todos os outros seres), eu vou reduzindo as possibilidades de conhecê-lo. Quando se percebe a impossibilidade de conhecer o ser, afirma-se que o ser é incognoscível ( a realidade não pode ser conhecida), e não que a teoria realista está equivocada.
O problema de Hegel é a mediação pelo trabalho e não pela produção. Existe um debate muito grande sobre o que é a intervenção na prática. Por ex: debate sobre empirismo. O que entra de prática não entra como simples empirismo, como trabalho do espírito, para Marx entra como produção material. assim, o experiemntalismo é contemplação.
O debate da ideologia
Natureza da forma jurídica seria a de uma realidade- ideologia?
Forma jurídica: sujeito de direito e ideologia jurídica. O sujeito de direito é a teoria do valor puro, no aspecto mais depurado. A ideologia sofistica esse processo. Para que a Teoria do valor possa convencer, dada a sua "pureza", ela precisa de representação, disso decorre a sofisticação metodológica do sujeito de direitos por meio da ideologia jurídica.
Valor enquanto uma mediação necessária é uma categoria ideológica. Se você se coloca imediatamente como sujeito de direito, você se coloca para a troca.
Lukács não utiliza a palavra essência de forma rigorosa. Por vezes, ele iguala o conteúdo à prática social. Forma ele não diz o que é, mas diz que se a forma fosse entendida a partir do conteúdo, as antinomias do pensamento burguês seriam afastadas. Contemplação não deixa de ser uma práxis pura.
A crítica a Engels
No prefácio, Lukács volta atrás na critica que havia feito a Engels, no sentido de que Engels teria se equivocado ao designar por práxis - no sentido da filosofia dialética – a atitude própria da indústria e do experimento.
| DHCTEM |
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