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RELATÓRIO - Reunião 06/06/2019 - "A reificação e a consciência do proletariado", Georg Luk

  • 6 de jun. de 2019
  • 5 min de leitura

Relatório – Reunião 06/06/2019

Tema: A reificação e a consciência do proletariado


I. A reificação e a consciência do proletariado


Item 2


Comentários iniciais (p.325-328):


- Foi apontada uma dúvida sobre Kant. Há uma citação do autor a Kant em que parece atribuir à natureza o caráter de fio condutor de algo, mas a leitura de Kant nos sugere o contrário.


- Percebemos que Lukács sempre retorna ao debate com Kant. O autor diferencia a “coisa em si” para Kant e para Hegel. Este último retira a “coisa em si” da representação (natureza exterior à consciência e inapreensível) e a coloca no processo do movimento histórico.


- Em O Capital, Livro III, Marx trata da “essência e aparência” e afirma que se ambas coincidissem não haveria necessidade da Ciência. A dúvida consiste em saber se existe uma “coisa em si”, que está sendo criticada pelo marxismo. Em caso positivo, é possível pensar em uma crítica imanente.


Lukács inicia o item 2 para tratar da importância do conhecimento do presente para a história do proletariado, no sentido do saber da situação social e de sua necessidade (gênese);


Neste trecho Lukács antecipa o que faz posteriormente n’A Ontologia do Ser Social. Gênese e história podem fazer parte do mesmo processo: (a) categorias que edificam a existência humana aparecem como determinação dessa existência; (b) sucessão, ligação e conexão se mostrarem como aspectos estruturantes do mesmo processo. Aqui a sucessão tem relação com a relação mantida na sociedade burguesa moderna, inversa da relação natural.


A questão da estrutura econômica da sociedade é colocada por Lukács, ao lembrar da polêmica de Marx e Proudhon. O marxismo vulgar comete o erro teórico de tomar como ponto de partida como aceitação da estrutura social dada – empírica.


A forma filosoficamente objetivada pressupõe categoria do dever que não pode ser aplicada, tal como recebido na filosofia Kantiana (teoria do dever).


Hegel demonstrou o pressuposto lógico da progressão infinita insere elementos “qualitativamente incomparáveis em relação puramente quantitativa” (p.329). Com isso ser e dever mantem ligação aparente, exterior e o nascimento e desaparecimento da história. A modificação opera no aspecto exterior, da relação quantitativa e não qualitativa.


Na passagem de Kant para Hegel muda o conceito de “coisa em si”, que passa a ter uma existência mediada (p.330). Para a superação do imediatismo da empiria e de seus reflexos racionalistas não é preciso ir além da imanência do ser (social). Ir além da empiria significa compreender a totalidade da sociedade em transformação histórica (p.330). O pensamento burguês deve ser abandonado para compreender que a existência empírica dos objetos já é mediada, “por um lado, falta a consciência da mediação e, por outro, os objetos (principalmente) são arrancados do complexo de suas determinações reais”.


Lukács apresenta a função metodológica das categorias de mediação, atitude teórica que expressa a distinção do ser social da classe burguesa e proletária, cujo conhecimento é superior (p.332). Ele aponta ligação do método com o da classe concernente: “para a burguesia, seu método ascende diretamente do seu ser social, o que significa que o simples imediatismo adere ao seu pensamento como algo exterior [...]. Para o proletariado, ao contrário, trata-se de superar internamente essa barreira do imediatismo no ponto de partida, no momento em que assume seu ponto de vista (p.333). O problema desta diferenciação apontada por Lukács é que vira uma questão de ponto de vista. Contudo, o problema do método não é uma questão de ponto de vista, mas sim de forma versus conteúdo. Note-se que essa noção de “ponto de vista” não está nem em Hegel, para quem o método já tem uma imanência no objeto. Dessa forma, Lukács coloca o sujeito como o aspecto mais importante.


O método dialético produz e reproduz seus próprios aspectos essenciais. A “negação de desenvolvimento retilíneo e plano do pensamento” (p.333).


Nesse item vemos com maior detalhamento como ocorre a mediação da representação. O ser social é o mesmo, tanto para burguesia quanto para o proletariado, mas o caráter dialético do processo histórico (caráter mediado de cada fator) é essencial para a existência do proletariado enquanto a burguesia encobre tal caráter por categorias abstratas de reflexões (p.334).


A burguesia confronta com a dualidade do ser social, em uma dialética inconsciente (indivíduo particular confronta-se com sujeito cognoscente, com necessidade de evolução social – a classe permanece transcendente). Para proletariado ser social aparece como objeto dos acontecimentos sociais isto se apresenta no fato de que as suas necessidades essenciais são aspectos da produção e reprodução do capital (p.335). Em suma, segundo o autor, as necessidades do proletariado fazem com que ele tenha compreensão do ser social. Marx trata do empregador como a personificação da relação capital, sob a determinação das formas sociais, enquanto Althusser trata do suporte das estruturas. Percebe-se que o autor trata o trabalhador enquanto “conteúdo” impedido pela “forma capitalista” de existir verdadeiramente, como se o trabalho não fosse uma forma específica capitalista e não fosse determinado pelas relações capitalistas (e não algo externo a elas).


Tanto capitalista quanto trabalhador experimentam o caráter reificado da sociedade capitalista, mas para o primeiro a “dilaceração do seu sujeito conserva forma brutal do que tende a ser sua escravização sem limites” (p.337).


A transformação da quantidade em qualidade é aspecto determinado do processo dialético de desenvolvimento, mas mais do que isso, surgimento da autêntica forma objetiva do ser, conforme coloca Lukács amparado teoricamente pelo auxílio da Lógica de Hegel (p. 337). Ao exemplificar, apresenta o tempo de trabalho, como a venda da mercadoria força de trabalho, além da forma que determina sua existência.


O autor trata do ser social do trabalhador e de sua consciência, que passa de forma imediatista pela tomada de consciência de si mesmo como mercadoria. Posteriormente o(a) trabalhador(a) passa a reconhecer a si mesmo e suas próprias relações com o capital na mercadoria (p.340). A denominação de Lukács para referido processo é “autoconsciência da mercadoria” ou, em outras palavras, “no autoconhecimento da sociedade capitalista fundada sobre a produção de mercadorias (p.341).


O caráter especial do trabalho, como mercadoria com valor de uso, opera no sentido de despertar consciência. Por outro lado, na objetificação da mercadoria força de trabalho, “uma relação entre homens sob uma capa reificada, um núcleo vivo e qualitativo sob uma crosta quantificadora, pode ser desvendado o caráter fetichista de cada mercadoria” (p.342).


O processo de mediação, cujo objetivo é o conhecimento da sociedade como totalidade histórica, capaz de ser apreendido pelo método dialético, que tem como fator diferenciador do pensamento reflexivo a relação do todo com as partes (p.342). Em suma, “a essência do método dialético – a partir desse ponto de vista – consiste no fato de que a totalidade está compreendida em cada aspecto assimilado corretamente pela dialética e de que todo método pode desenvolver-se a partir de cada aspecto” (p.343).


Assim como o capítulo da Lógica de Hegel sobre o ser, o não-ser e o vir-a-sercontem toda a sua filosofia, o capítulo sobre o caráter fetichista da mercadoria oculta em si todo materialismo histórico dialético (p.343).


Lukács reconhece a validade do programa de Hegel que visa conhecer o absoluto, mas no materialismo histórico passa pela compreensão do aspecto na totalidade.


É apresentado um paralelo da relação de trabalho para a burguesia, que analisa dentro do imediatismo próprio de sua classe, com caráter qualitativo, o que leva a progressão a uma racionalização capitalista do ser social. Para o proletariado o processo significa seu nascimento como classe (p.345).


A dissimulação objetiva da forma mercantil reifica o trabalhador, transformando-se em mercadoria até a sua insurgência consciente contra essa situação. Há, porém, o cultivo da consciência de status para impedir o surgimento da consciência de classe (p.347)


Lukács conclui o item “2” coma assertiva de que é preciso abolir as falsas formas de existência para que “a própria existência surja como classe para o proletariado”.


Comentários finais:

- Foram apontados os limites de Lukács, relacionados ao fato dele ser hegeliano. É como se ele estivesse dizendo que a burguesia é kantiana (o limite da burguesia seria sempre realizado em Kant). Tal posicionamento mostra-se equivocado, porque Hegel também apresenta um pensamento burguês, mas para o autor parece que não o é, ou, pelo menos, que se trata de um pensamento não igualmente burguês.


- A conceituação do sujeito de direito pode ser encontrada na p. 346, primeiro parágrafo: “a universalidade abstrata de da manifestação do princípio social”.



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