RELATÓRIO - Reunião 08/08/2019 - "A reificação e a consciência do proletariado", Georg Luk
- 8 de ago. de 2019
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Relatório – Reunião 08/08/2019
Tema: A reificação e a consciência do proletariado
Item 4.
1. Lukács conclui o item anterior indicando, por um lado, a limitação do pensamento burguês,que permanece dependente das formas derivadas do capital, como se elas fossem imediatas e originais (p. 369), incapacitando a compreensão da totalidade concreta e, por outro lado, para o proletariado, aponta a “perspectiva de uma visão completa das formas de reificação que, partindo de uma forma dialeticamente mais clara, refere a esta as formas mais distantes do processo de produção, incluindo-as na totalidade dialética e compreendendo-as” (p.370).
Comentários: Aqui, utiliza-se do sistema de “formas” de maneira assistemática.
Item 5.
2. Lukács prossegue afirmando o homem como “medida de todas as coisas (sociais)” (p. 370), a partir do desenvolvimento dialético histórico das relações concretas, de modo que surge a “estrutura do mundo humano como um sistema de formas, cujas relações transformam-se dinamicamente por si mesmas”, que é sucedido pelo “processo de confrontação entre homem e natureza e o dos homens entre si (lutas de classe etc.)” (p. 370).
Comentários: Ideia de que as formas se reproduzem a partir da produção.
3.“A história não se manifesta mais como um acontecimento enigmático, que se efetua sobre os homens e sobre as coisas e que deveria ser explicado pela intervenção de poderes transcendentes ou tornar-se coerente pela referência a valores transcendentes” (p. 371), constatação que Lukács faz recobrando a história como produto da atividade dos próprios homens, por um lado, e como consequência dos processos de trabalho e suas metamorfoses, por outro.
Comentários: Questão de mediação, que não é uma coisa aleatória, pois se realiza por determinações.
4. O autor deduz, então, que se uma “estrutura categorial de uma situação social não é imediatamente histórica”, então“todo sistema semelhante de categorias designa em sua totalidade um determinado grau de desenvolvimento da sociedade” (p. 371) e, assim, a “historia consiste justamente no fato de que toda fixação reduz-se a uma aparência: a história é exatamente a história da transformação ininterrupta das formas de objetivação que moldam a existência do homem”. (p. 371)
Comentários: O imediato não é histórico, o mediado é histórico. A classe trabalhadora promove mediações no processo histórico, ou seja, a história tem a ver com a consciência de classe na medida que ela se faz por mediação da classe trabalhadora.
Para o pensamento burguês, utilizando o exemplo da propriedade, a relação imediata ocorre entre homem e coisa. Para o pensamento marxista, há uma relação social entre os indivíduos com base nas relações de produção existentes que vão mediar a relação de propriedade. Somente esta última perspectiva dá o sentido de história.
A burguesia sempre tenta determinar o “fim da história”, considerando-a imediatamente como se a história estivesse finalizada.
5. O encadeamento destas “determinações isoladoras” ou “fatos isolados” é mediado principalmente “por sua posição e função recíprocas na totalidade, de tal modo que a recusa da explicação “puramente histórica” dos fenômenos individuais serve apenas para tornar mais evidente a história como ciência universal” (p. 372), os problemas das categorias se transforma, tão logo os fenômenos individuais são submetidos ao processo dialético, e se evidenciam, então, como problemas de método e de conhecimento do presente (p. 372).
6. “Somente desse ponto de vista a história torna-se realmente a história dos homens” (p. 372) mudança de rumo decisiva para a elaboração da filosofia de Feuerbach e sua consequente influência para o materialismo histórico.
Comentários: Quando tornamos o processo histórico num processo puramente de explicação dos fenômenos individuais, cria-se um problema com o conceito de história universal. O processo histórico numa análise empírica ou meramente individual de fatos imediatos conduz à “robinsonadas”.
7. No entanto, o homem como medida de todas as coisas aparece como uma objetivação fixa quando não submetido à dialética deste processo (p. 372). “No lugar da metafísica dogmática coloca-se [...] um relativismo igualmente dogmático” que, desprovido de dialética, mostra-se imóvel, estático ou aparentemente móvel (p. 373).
Comentários: Há um problema de Lukács com a antropologia que coloca o homem no centro das coisas, neste ponto, contesta o humanismo de Feuerbach (mesmo sem ter tido contato, neste momento, com a Ideologia Alemã) e cita Nietzche como um relativista dogmático a partir do homem, pois não o localiza nas formas sociais de produção, afastando “o absoluto do mundo apenas aparentemente” (p. 374).
8. Lukács cita a fraqueza e deficiência de “pensadores ousados”, tais como Nietzsche e Splenger, consiste no fato de que seu relativismo afasta o absoluto do mundo apenas aparentemente, “pois o ponto que corresponde em termos de lógica e de método ao cessar do movimento aparente nesses sistemas é justamente o ‘lugar sistemático’ do absoluto” (p. 374) assim, são “uma manifestação decadente daquele racionalismo ou daquela religiosidade que se expressam sob a forma da dúvida, do desespero etc. [...] são significativos apenas como sintomas” (p. 375).
Comentários: Quando se parte do próprio homem como centro de tudo, deixa-se de lado o processo de determinações, recaindo num imediatismo que não tem crítica, só sobra o homem repetindo a si mesmo. É um absoluto com materialidade ou não, no entanto, sem história.
Por outro lado, o conceito de história de Lukács é mediado a partir da perspectiva da classe trabalhadora. Não basta contar a história da classe trabalhadora, é necessário partir de um conceito metodológico-cientifico.
9. O processo histórico,então, essencialmente dialético, torna o absoluto uma “figura histórica concreta, como momento do próprio processo” e aparece como “autoconhecimento (social) do homem”(p. 375). “A ‘relativização’ da verdade em Hegel significa que o fator superior é sempre a verdade do fator que se encontra numa posição inferior no sistema. Por isso a ‘objetividade’ da verdade não é destruída nesses níveis limitados” (p. 375).
Comentários: Lukács aponta onde Hegel era incompleto e onde Marx colocou a completude. “A história torna-se a história das formas de objetivação” (p. 376).
10. Lukács indica ponto de partida da verdade (histórica): a “conscientização do ponto de vista de classe do proletariado”, que ocorre “quando a unificação entre teoria e prática, que viabiliza a transformação da realidade, é alcançada”, e assim “o absoluto e o seu pólo oposto ‘relativista’ terão cumprido seu papel histórico” (p. 376).
11. Constatando que Marx incorporou radicalmente o materialismo de Feuerbach e o concluiu, Lukács aponta a ruptura que Marx dá em relação a Hegel (pp. 376-377).
12. Em seguida, citando Marx,o autor comenta sua forte influência de Feuerbach, ao conceber o homem histórica e dialeticamente. “Em primeiro, [...] pensa-o sempre como membro de uma totalidade concreta, da sociedade”. “Em segundo lugar, o próprio homem toma parte do processo dialético de maneira decisiva enquanto fundamento objetivo da dialética histórica, enquanto sujeito-objeto idêntico a ela subjacente”, desta forma, voltando a abstração inicial, “simultaneamente ele é e não é”(p. 377).
Comentários: O sujeito é o sujeito proletariado que vai mover a história, tomando essa “autoconsciência” e se tornando o sujeito ligado à história pelo movimento de transformação.
A partir da ciência burguesa (finita, com possibilidades limitadas, que naturaliza o imediato, que trava o desenvolvimento do processo histórico, etc.) inviabiliza-se o conceito de história de Lukács. A partir da classe trabalhadora, a totalidade não é um fim em si mesmo, é um modo de ler o processo.
13. O não-ser concretiza-se no conhecimento da sociedade burguesa (e onde está condenado ao não-ser),ou seja, no homem abstrato (p. 378),Lukács,a partir de uma citação da crítica à filosofia de Hegel,localiza o não-ser de Marx pela objetivação que sofre de seus próprios produtos enquanto homem abstrato(p. 378).
14. Para Lukács, a solução para conceber o homem real e histórico se dá a partir da “aplicação correta das categorias dialéticas sobre o homem como medida de todas as coisas” composta tanto pela “descrição completa da estrutura econômica da sociedade burguesa”, quanto pelo “conhecimento correto do presente”, tal como se manifestam no processo concreto e real de desenvolvimento do capitalismo (p. 379). “Caso contrário, a descrição [...] deve cair no dilema entre empirismo e utopismo, entre voluntarismo e fatalismo etc.”, ficando presa a uma facticidade bruta, subjetiva e arbitrária que se opõe ao desenvolvimento histórico (p. 379).
15. Essa facticidade bruta, subjetiva e arbitrária é o destino das formulações que partem conscientemente do homem, “aspirando soluções no plano teórico” para “libertá-lo desses problemas no plano prático” (p. 379). Nesses casos, a “forma de manifestação de imediata é fixada como intangível ao homem, e essa intangibilidade é formulada como mandamento moral” (p. 380).
Comentários: Síntese do pensamento burguês.
16. Lukács exemplifica com os moldes do cristianismo que apresentam a realidade empírica da existência e do modo de ser (social) do homem que, por sua vez, recaem em soluções “humanistas” aos problemas da humanidade: “é obrigada a negar a humanidade à maioria predominante dos homens, a excluí-los da “salvação”, na qual sua vida adquire o sentido que na empiria é inalcançável, na qual o homem torna-se de fato humano” (p. 380).
16. Fragmenta-se o homem e fixa sua incapacidade de apreciar o todo e, assim, de acordo com Lukács, “ela reproduz [...] a desumanidade da sociedade de classes num plano metafísico e religioso, no além, na eternidade” (p. 380).
17. Ao ponto que tais concepções se tornam “um fator de poder político e econômico ao lado da classe dominante do momento” (pp. 380-381), deixam intacta a estrutura objetiva da existência empírica do homem, por um lado, e apostam no despertar da interioridade do homem para transformar a realidade, por outro, o que demonstra como esse exemplo da religiosidade fornece “a ideologia para as formas mais refinadas do capitalismo” e simultaneamente corresponde “à estrutura ideológica básica do capitalismo” (p. 381).
18. Lukács desenvolve essa concepção ao ponto de que tal exemplo poderia até mesmo representar a “estrutura burguesa da coisa em si, própria da consciência reificada, de forma mitológica mas pura” (p. 382).
19. “O indivíduo nunca pode se tornar a medida das coisas, pois contrapõe-se necessariamente à realidade objetiva como a um complexo de coisas rígidas, prontas e inalteradas, que lhe permitem alcançar apenas o juízo subjetivo do reconhecimento ou da rejeição”, portanto, “somente a classe [...] é capaz de referir-se à totalidade de maneira prática e revolucionária” (p. 383).
Comentários: Há um problema com as categorias hegelianas utilizadas, de tal forma a prejudicar a compreensão dos conceitos usados.
20. Novamente, Lukács retoma o indivíduo como ser fragmentado, para o qual a reificação e determinismo são inevitáveis. O caminho para à “liberdade”interdita qualquer caminho para fora de suas premissas (p. 384).
21. Esses caminhos tendem, ainda, ao misticismo e a mitologia conceitual (p. 384). Como mundo projetado,tal mitologia aproxima-se da realidade imediata e assume-se como solução da fragmentação anteriormente operada, representando “’a reprodução fantástica do caráter insolúvel do próprio problema’;o imediatismo é reproduzido, portanto, num grau mais elevado” (p. 385).
22. O que é místico fica mais próximo do indivíduo isolado, por sua vez despojado da ação dialética com os componentes empíricos (p. 384), distanciado do seu “ser concreto na totalidade concreta de uma sociedade humana” (p. 385), que se torna imperceptível neste mundo projetado.
23. O determinismo reificado fica mais evidente para o homem reificado (p. 385) do que a mediação que o leva a compreensão da totalidade, do movimento da própria realidade empírica. O “homem individual como medida de todas as coisas conduz necessariamente a esse labirinto da mitologia” (p. 386).
24. Lukács esclarece que o “indeterminismo” não corresponde a uma resposta ao “determinismo reificado”, já que tal indeterminismo se localiza na margem “livre” de ação, dentro do que a “irracionalidade das leis reificadas”podem oferecer ao indivíduo na sociedade capitalista (p. 386). O misticismo permanece inalterado e o fatalismo do mundo exterior à “livre ação” continua intacto (p. 386).
Comentários: Indeterminismo que é feito sem determinações e um determinismo onde as determinações são feitas de forma reificada.
25. O autor exemplifica através da “revolta humanista” de Jacobi contra o positivismo de Kant e Fichte, exigindo que “a lei fosse feita para o homem, e não o homem para a lei” (p. 386), que, por sua vez, deságua também num positivismo insuficientemente mais refinado.Por outro lado, na nota de rodapé n. 162, o autor indica que a crítica negativa de Hegel “correta em relação ao método, [...], cujas consequências positivas, no entanto, chegam ao mesmo resultado” (p. 386).
26. Tal visão parcial que isola a totalidade, voltada conscientemente para a reformulação da sociedade, por outro lado, é obrigada a “deformar a realidade social para poder apontar numa de suas formas de manifestação o lado positivo, o homem existente” (p. 386).
27. Lukács utiliza como exemplo de tal deformação da realidade social, uma passagem de Lassale em Bastiat-Schulze: “Não há meio social para sair dessa situação. Os esforços em vão da coisa para se comportar como ser humano são as greves inglesas, cujo triste resultado é bastante conhecido. Portanto, a única saída para o trabalhador só pode ser oferecida pela esfera dentro da qual ele ainda é considerado como ser humano isto é, no Estado, num Estado que estabeleceria como tarefa aquilo que a longo prazo é inevitável”. (p. 387).
28. Lassale vê o Estado como terreno adequado para lutar contra a reificação do homem, tanto que coloca “a burguesia liberal contra o próprio conceito de Estado em todas as suas manifestações” (p. 387).
Comentários: O Estado como agente destas determinações reificadas.
29. Lukács, por sua vez, aponta os problemas de tal concepção que, fundada no direito natural, continua coberta pela lógica capitalista ao separar abstratamente economia e Estado. Evidencia, ainda, que tais teorias particulares e despidas de dialética, são sustentadas pelas ideias de “liberdade” e “dignidade humana” que impedem o “movimento organizado do proletariado” (p. 387). Em seguida, Lukács esclarece como uma semelhante construção intelectual pode ser utilizada justamente à interpretação oposta, tornando possível “certos direitos de transformar o homem em mercadoria, sem que com isso seja suprimida [...] sua ‘dignidade humana’” (p. 387).
30. Por um lado, tal fragmentação do pensamento burguês concebe um fatalismo baseado no fato empírico e imediato e, por outro lado, a separação do Estado da economia capitalista “atribui à sua essência concreta uma função completamente estranha e utópica” (p. 388). Interdita-se, pela separação entre política e economia, o caminho a qualquer transformação dessa realidade.
31. “Além disso, o fatalismo econômico impede qualquer ação enérgica sobre o domínio econômico, enquanto o utopismo de Estado se lança na expectativa de um milagre ou na política aventureira de ilusões” (p. 388), afastando por completo os elementos de uma dialética ativa.
32. Com o desenvolvimento da socialdemocracia essa obstrução da unidade dialética se degenera “numa justaposição inorgânica de empirismo e utopismo, de apego aos ‘fatos’ (em seu imediatismo insuperável) e de ilusionismo vazio e estranho ao presente e à história” (p. 388).
33. Os interesses da burguesia são devidamente contemplados pela socialdemocracia pela intensificação da parcialidade para suprimir a totalidade, seja pelo fatalismo econômico, seja pelo utopismo “ético” das funções “humanas” do Estado (p. 388). Terreno no qual a burguesia naturalmente conservará sua superioridade sobre o proletariado, transformando-o em “simples elemento da sociedade capitalista, e não, ao mesmo tempo, o motor de sua auto dissolução e destruição (p. 389).
34. Assim, Lukács cita como essa dualidade submete o proletário às leis naturais da produção ou faz com que as absorva“eticamente” em sua vontade. (p. 389). O fato de essas leis revelarem conexões parciais dessa existência imediata e excluírem a ação dialética que busca a totalidade reforça a vantagem da burguesia sobre o proletariado.
Comentários: Aqui a utilização da ética toca, ainda que indiretamente, na ética burguesa consubstanciada na liberdade, igualdade, etc.
35. Conforme Lukács, estas leis renunciam à “vocação histórica do proletariado, com a intenção de mostrar uma saída para os problemas do capitalismo que a burguesia não consegue resolver” (p. 390) para dar soluções parciais em contraposição à capacidade do proletário de “ver a totalidade da sociedade como totalidade concreta e histórica” (p. 390).
36. “O fato de o princípio ‘do homem’ como valor, como ideal, como dever etc. desempenhar um papel cada vez mais forte justamente nessa ideologia – [...] com um ‘discernimento’ crescente da necessidade e da legalidade do acontecimento econômico-factual – é apenas um sintoma dessa recaída no imediatismo reificado da sociedade burguesa” (pp. 390-391).
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