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RELATÓRIO - Reunião 10/10/2019 - Para uma ontologia do ser social, Georg Lukács (p. 382-392)

  • 10 de out. de 2019
  • 8 min de leitura

Relatório – Reunião 10/10/2019

Para uma ontologia do ser social (p. 382-392)


TEXTO: LUKÁCS, Georg. Prolegômenos e Para uma ontologia do ser social: obras de Georg Lukács. volume 13. Tradução Sérgio Lessa. Revisão Mariana Andrade. Maceió: Coletivo Veredas, 2018.



PRESENTES: Marcus Orione, Flávio Batista, Pablo Biondi, Deise Martins, Regiane Macedo, Helena Duarte, Rodrigo Maluf, Daniel Ferrer, Thamíris Evaristo e Ivan Palma.


1º Trecho de leitura: “Veremos a seguir que essa tendência à abstratividade hipostasiada brota necessariamente do cerne da posição heideggeriana…” (p. 382) a “(...) apesar de todas as divergências com o método de Husserl, trata Heidegger esses objetos tal como aquele tratou os objetos puramente lógicos.” (p. 383).


Debate: Relação com o trecho anterior, que tratava do aprofundamento da teoria de Heidegger acerca do existencialismo, do ser e do ente. Ontologia de Heidegger que tem o ser humano em seu centro.


Objeto tratado que se relaciona com a discussão entre ciência e técnica, como no exemplo do indivíduo da pré-história que recolhe galhos na natureza e faz fogo a partir daí. Isto é, uma ontologia que não demanda uma ciência, a manipulação da natureza a partir de um padrão observável (o raio que implica o fogo em uma árvore, e a reprodução desse padrão a partir do que foi observado). Com o neopositivismo, a reprodução de um determinado fenômeno já implicaria uma atividade científica, que não se relaciona com a ontologia em si. Outro exemplo: com a reprodução do fogo a partir de uma caixa de fósforos sequer é necessária a compreensão sobre o padrão a ser reproduzido.


Questão do instrumento e do processo de ideação. Introdução por Lukács desse debate. Trecho que é central para o desenvolvimento das três esferas ontológicas e como uma se origina da outra. Crítica da ontologia exclusivamente humana de Heidegger, sem levar em conta a ontologia do mundo natural e do mundo inorgânico. Todavia, a ontologia humana de Heidegger é posterior a uma ontologia natural.


Ontologia antropocêntrica de Heidegger que retira a historicidade. O que é um problema do ponto em que Heidegger toma como partida para o seu pensamento, e não necessariamente uma questão tomada por Heidegger de forma problematizada. Categorias da vida cotidiana nas quais não há o trabalho; o mundo exclusivo do ser humano.


A fenomenologia diz respeito justamente a essa utilização da ferramenta, a partir de sua utilidade, sem a compreensão de base ontológica. Ou seja, realização de um empirismo e não do materialismo histórico dialético.


2º Trecho de leitura: “Nisso se expressa a profunda afinidade desse aspecto da filosofia de Heidegger com o neopositivismo…” (p. 383) a “(...) o mundo exclusivo do ser humano em Heidegger.” (p. 383).


Debate: Definição da coisa pelo uso, “o martelo pelo martelar”; ou seja, o fenômeno enquanto via para o conhecimento, o empirismo, e não o materialismo histórico dialético. A coisa a partir de seu uso, a sua “utilizabilidade”, de sua imediaticidade. Retirada da perspectiva, por exemplo, que o martelo é uma mercadoria, que fora produzido pelo trabalho em determinado modo de produção, que se torna meio para produção de outras mercadorias, etc. Portanto, o instrumento não historicizado. Assim, o fenômeno se torna a essência; não há a inquirição acerca da essência pelo o que ela é, mas a partir de seu uso.


3º Trecho de leitura: “Que pode ser assim caracterizado…” (p. 384) a “(...) ‘retira cada vez a responsabilidade de cada Dasein’.” (p. 384).


Debate: Heidegger retira a determinação da contradição, o que se torna antidialético; o seu “ser” é uma representação pelo fim, pela finalidade. Há o desprezo pelo objeto, o que implica sua presença idealizada; por isso uma ontologia fraca, aparece apenas idealmente. Assim, Lukács aproxima Heidegger ao neopositivismo, com a utilização por este de categorias abstratas.


Volta dos neopositivistas, ou os que assim se dizem, a Kant. Tentativa de volta, mas não de forma total; tentativa de adaptação de Kant, da utilização de uma forma sofisticada. Exemplo: não que a coisa em si não exista, mas que existe enquanto fenômeno. Transformação do fenômeno em coisa em si, daí a aproximação de Heidegger ao neopositivismo.


4º Trecho de leitura: “Com isso alcançamos a concretização heideggeriana do ‘silêncio’ de Wittgenstein. A primeira impressão é que, aqui, Heidegger, vai amplamente para além desse motivo batido…” (p. 385) a “(...) conduz a arbitrariedades similares devido à afinidade metodológica.” (p. 386).


Debate: Função do como imediato em seu oposto a partir do materialismo; exemplo da relação entre o “capital usurário nos sistemas econômicos pré-capitalistas e no capitalismo”; de “o como imediato é resultado, modo de externar-se de complexos de forças reais muito distintos, os quais sempre podem mudar bruscamente sua função atual, o como imediato, com frequência precisamente em seu oposto.”.


Quando se investiga a coisa pelo como (a finalidade imediata) e não pelo o que é (a essência), sujeita-se a essa transformação de funcionalidade que independe apenas da essência da coisa. A ontologia é mobilizada por complexos de forças distintas, e não apenas pela função da coisa. O exemplo apresentado por Lukács é de uma coisa que mudou totalmente de função, mudou para o seu contrário; o capital usurário possuía uma finalidade desagregadora nos sistemas pré-capitalistas, e passou a ter uma função de viabilizador do sistema capitalista.


Se se olha o como, perde-se o que se é. Lukács também inclui em tal passagem Wittgenstein, isto é, não apenas a funcionalidade (tratada por Heidegger), mas também a descrição da coisa.


A comparação do capital usurário, seria uma diferença de função ou de ontologia? Seria uma diferença de função, mas não de ontologia para Lukács. Discussão que o capital usurário nos sistemas capitalistas e pré-capitalista seria outra coisa também pelo aspecto ontológico, e não apenas a partir da função em um e em outro sistema. Mas a lógica de Lukács é de ontologia histórica-dialética, ou seja, ler o capital usurário à luz do que é o capital no capitalismo; identificação de uma função de acumulação primitiva, etc. O capital usurário nos sistemas pré-capitalistas e capitalista é, fenomenologicamente, a mesma coisa, isto é, empréstimo de crédito a juros; a crítica de Lukács é que, apenas a partir da função, não se apreende o complexo de forças reais distintos, as quais mudam a função.


Exemplo do capital usurário que não seria tão bom; não apenas a função que muda, mas também a coisa em si. Contudo, essa seria justamente a crítica de Lukács a partir de Heidegger. Para este, a partir da crítica lukacsiana, o capital usurário, no sistema pré-capitalista, teria fim desagregador, pecado, etc; no sistema capitalista, é o que permite a mobilização do capital para fins produtivos.


Quais seriam os sentidos de função no exemplo do capital usurário? Função no sentido de empréstimo de dinheiro a juros ou o efeito do capital usurário no modo de produção? É Heidegger que não apreenderia a coisa a partir da historicidade, mas tão somente do fenômeno, da função. Por isso o exemplo apontado diria respeito a apreensão da coisa tão somente pela função, o “martelo pelo martelar”, sem a ontologia histórica dialética. O lado oposto do martelo é justamente uma alavanca para a retirada de prego, ou seja, o contrário de sua outra função; o imediato da função atual, com frequência, muda para o seu oposto. Do mesmo modo, o capital usurário - que é esse o sentido do exemplo.


5º Trecho de leitura: “Esse arbítrio delineia-se de todo nítido onde Heidegger identifica o império mundial do ‘a-gente’ com a publicidade...” (p. 386) a “(...) igualmente característico do arbítrio como base metodológica da fenomenologia é a naturalidade da equalização ontológica da publicidade e da inautenticidade.” (p. 386).


Debate: Trecho que mostra o problema de se começar a partir daqueles que consideram o ser por elementos contaminados da relação entre essência e aparência. Começa-se a explicar pela aparência, o que dá o contrário a partir dele mesmo. No exemplo, a possibilidade do pensamento ser encapado por vertentes autoritárias.


6º Trecho de leitura: “O contraste, tão importante para o impacto de Heidegger, de autenticidade e inautenticidade do ser humano em um mundo manipulado…” (p. 386) a “(...) É assim, justamente, no caso citado.” (p. 388).


Debate: Destacar a questão do “ser humano”; muitos apontam Lukács como humanista, mas, em tal trecho de leitura, apresenta uma série de empecilhos a uma filosofia que se diz antropológica; ou seja, o próprio Lukács já é crítico de algum humanismo.


7º Trecho de leitura: “Heidegger se refere, em ‘Ser e Tempo”, a Kierkegaard apenas e uma nota em que critica a sua dependência ontológica de Hegel…” (p.388) a “(...) mostra ontologicamente o ser completamente alienado desse ser-aí, mas faz disso - na moldura da vida terrena real - algo final, inexorável.” (p. 390).


Debate: Partimos do que o texto nos apresenta sobre determinados outros autores a que é feita referência, sem que isso implique acertos totais. Lukács já vinha dizendo acerca da relação entre Heidegger e Hegel, de sorte que este teria mais substância com a ontologia do que aquele. Lukács apresenta a crítica de Heidegger a Hegel a partir de Kierkegaard; a indiferença entre contradição e contrário para a dialética hegeliana. A crítica de Kierkegaard a Hegel é baseada no irracionalismo religioso que estaria neste último; a ontologia hegeliana, assim, seria uma ontologia cristã para a explicação do ser, isto é, haveria um esoterismo na explicação do ser em Hegel, o que seria incorporado por Heidegger.


Ao invés de “Deus”, Heidegger se vale de categorias mais abstratas, inclui o “nada”; para Lukács, Heidegger faria uma teologia sem Deus ante a relação entre “ser” e “nada”. Mesmo com a retirada de “Deus”, há uma abstração, não torna a ontologia antropológica de Heidegger mais concreta. No “nada”, não haveria determinação nenhuma, seria a ausência de predicação; daí a maneira de entender o “ser” seria a partir do “nada”. A angústia e o tédio seriam formas pelas quais esse “nada natificante” se expressam.


Esse “nada” de Heidegger, aparece em “O que é metafísica?”como o nada natificante, que permite que o ente se torne o ser-aí; o ente abstrato se torna o ser-aí-concreto. Há assim uma substituição da teologia pelo “nada”. Atribuição que não seria teológica, mas seria um “Deus” representado; o “Deus absconditus”; que é o nada totalizante, ao contrário de ser, mas é um “Deus” já representado. Logo, o ser não é essência, mas é uma representação da representação. O que parecia não abstrato - pois não teológico - se torna o oposto; o mesmo efeito do exemplo do capital usurário; as funções são atribuídas ao “nada”, o que vira alienação, porquanto inexiste materialismo histórico dialético nessa ontologia heideggeriana.


“Ser” e “nada” seriam pares contrários, mas não dialéticos. Já que a dialética de Hegel que é tida por Heidegger como teológica, cristã. “Contrário” que tem a ver com funcionalidade, com o fenômeno. Essa tensão entre “ser” e “nada” não regride nem progride em Heidegger; já em Hegel progride por ser dialética. Lukács está, então, enfrentando a problemática dessa filosofia de Heidegger.


O “a-gente” que atribui significados é arbitrário.


8º Trecho de leitura: “Tem-se, todavia, de conceder: Heidegger deseja apontar tal caminho…” (p. 390) a “O ser resoluto é condenado - não concreta empiricamente, como muito bem pode ser, mas ontologicamente - à completa ineficácia.” (p. 391).


Debate: O oposto do ser é o nada, daí a morte enquanto explicação do ser. Mas a morte se realiza em uma uma relação dualista, de intimidade, psicológica. O nada é atribuído, mas a morte é causadora de angústia. Relação maniqueísta entre admitir e não admitir o nada (a morte rejeitada na vida cotidiana, por exemplo); o que é mais superficial que o debate entre a essência e a aparência da dialética hegeliana. O debate entre o “ser” e o “nada” acaba sendo subjetivista; o não-Deus que é abstrato, vazio. Ainda que se admita a crítica a uma teologia de Hegel, em Lukács fica evidente que a resolução hegeliana a partir da dialética e preferida a Heidegger, que traz elementos abstratos, individualismo, sentimentos individuais.


9º Trecho de leitura: “Tem-se de admitir que Heidegger aqui toca uma questão importante.” (p. 391) a “(...) nada mais concreto e articulado do que esse próprio silêncio já era.” (p. 392).


Debate: Angústia em Heidegger é sem direção para a vida real, segundo Lukács; apresenta aquele um conceito teológico desteologizado. Superficialidade da angústia - ainda que tentada ser apreendida não a partir de individualismos.


Início do texto para a próxima reunião: “Aqui se mostra uma adicional tendência de pensamento…” (p. 392).



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